Mandado de prisão contra Rennan da Penha reacende polêmica de ligação entre crime e funk

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O mandado de prisão por associação para o tráfico expedido pela Justiça nesta sexta à tarde contra Rennan da Silva Santos, conhecido como DJ Rennan da Penha, idealizador do Baile da Gaiola, causa polêmica sobre a possibilidade de crimes ocorrerem em alguns bailes. Há um mês, uma operação da Polícia Militar para colocar fim ao evento deixou pelo menos quatro moradores feridos. O palco do confronto foi montado com tenda de circo e caixas de som em uma festa que chegou a receber um público de cerca de 30 mil pessoas.

No mandado de prisão, uma testemunha aponta Rennan como ‘DJ dos bandidos’. Além dele, outras dez pessoas envolvidas na organização do maior baile do Rio foram denunciadas por suposto envolvimento com o tráfico. A ação da PM no baile realizado desde 2015 divide opiniões. Para os profissionais ligados ao gênero musical, as ações criminalizam um movimento cultural.

Para a PM, a festa não segue normas do estado que regulamentam a realização de eventos com concentração de pessoas. No meio discussão, os jovens da região, que carecem de espaços de lazer e entretenimento nas regiões afastadas dos grandes centros. Na Penha, moradores comentam que, desde a operação de fevereiro para impedir o Baile da Gaiola, que era realizado na Rua Aimoré, a Polícia Militar proibiu qualquer baile funk na região.

Rennan da Penha – Divulgação

Questionada, a corporação informou que impede eventos em desacordo com o decreto nº 44.617. Dentre os dispositivos da Lei, está a necessidade de autorização prévia da Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros, o que, segundo a PM, não aconteceu em relação ao Baile da Gaiola.

Outro confronto

Segundo moradores, também houve confronto no último baile na Penha, na Rua Cajá, na madrugada do dia 10. A PM interveio. Houve confronto e ao menos duas pessoas foram baleadas. “Acho que imaginaram que apenas o Baile da Gaiola estava vetado. Mas não. A proibição é geral. Desde então, mais nenhum baile aconteceu”, comentou um estudante de 19 anos.

Um morador de 61 anos se disse a favor do fim dos bailes funks no bairro. “Era muito barulho. Os eventos só acabavam lá por volta de 13h do dia seguinte”, argumentou. Ele diz que não frequentava o Baile da Gaiola. Mas, como morador da região, conta que, apesar da presença de pessoas armadas em meio à multidão, nunca tinha havido problemas na festa.

Organizador rebate

Organizador do evento, Leandro Raimundo diz que pretende recorrer às autoridades para o retorno do Baile da Gaiola à Vila Cruzeiro. Ele rebate qualquer interferência de traficantes de drogas no evento. “O tráfico não tem nada a ver com o Baile da Gaiola que acontecia dentro da comunidade. Tanto que hoje fazemos o evento em diversas casas de show no Brasil e no mundo. Já estivemos nos Estados Unidos e estamos buscando a expansão para a Europa”, argumenta o organizador do evento.

‘Querem marginalizar o ritmo’

A MC Rebecca, famosa pelo proibidão ‘Cai de Boca’, lamenta a decisão de acabar com o baile. “Fico triste. Porque tentam, de todas as formas, tirar a nossa cultura, querendo marginalizar o nosso ritmo. Baile funk é um lugar que as pessoas vão para se divertir. É o país querendo esconder a sua própria raiz. Infelizmente, não temos o que fazer a não ser aceitar”, lamenta.

Para o MC Leonardo, um dos fundadores da Apafunk, associação do gênero musical, as alegações de venda de drogas e presença de armas é uma desculpa do poder público para criminalizar o funk carioca. “Não é só no baile da favela que o morador vai encontrar o fuzil, mas isso acontece o tempo inteiro. Quando ele vai levar o filho na creche ou comprar o pão na padaria. É hipocrisia culpar o funk”, critica o MC Leonardo.

Um dos criadores do evento ‘Eu Amo Baile Funk’, o DJ Grandmaster Raphael contextualiza o histórico de proibições dos bailes na cidade. “Isso começou no início dos anos 1990, quando proibiram os eventos que eram realizados em clubes. Foi quando os bailes subiram as favelas e passaram a descrever a realidade desses locais. Não é a música que causa a violência”, argumentou o DJ.

Colaboraram Fábia Oliveira a Ana Mello (estagiária)

O Dia

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